o fim do modelo

o fim do modelo

nos últimos doze meses, mais de 1.500 pessoas perderam o emprego no setor tecnológico uruguaio. pedidosya, ukg, basf, sabre, verizon/alorica. nomes distintos, mesmo padrão: anúncio sem aviso prévio, operações transferidas para a índia ou para mercados mais baratos, trabalhadores ficando sabendo pela imprensa.

o governo reagiu pedindo obrigatoriedade de aviso prévio. a indústria pediu competitividade cambial. ninguém falou do que realmente está em jogo.

o que está em jogo é o modelo inteiro.

o uruguai construiu durante vinte anos uma reputação como exportador de software. o maior por habitante da américa do sul, segundo alguns rankings. uma indústria que em 2024 faturou us$3.681 milhões, equivalente a 4,5% do pib. números que geram orgulho e que, vistos de perto, também geram perguntas incômodas.

porque por trás desses números há uma arquitetura frágil. aproximadamente 70% do setor, segundo dados da cpa ferrere e da cuti, corresponde a software factories: empresas que vendem capacidade técnica por encomenda, não produto próprio. o modelo funciona enquanto o talento local for mais barato que o talento em mercados desenvolvidos e mais confiável que o talento em mercados mais baratos. durante anos, o uruguai ocupou esse ponto intermediário com conforto.

esse ponto intermediário já não existe.

a primeira fratura é cambial. o dólar a 39 pesos coloca os custos trabalhistas uruguaios em paridade com a alemanha, em termos relativos. não em valor absoluto, um desenvolvedor uruguaio não ganha o mesmo que um em frankfurt, mas no que custa a uma multinacional operar aqui versus operar lá. o executivo da basf que disse isso publicamente não estava sendo cruel. estava sendo preciso.

os exportadores de serviços cobram em dólares e pagam em pesos. quando o peso se valoriza, suas margens se comprimem sem que nenhuma variável de produtividade mude. o resultado é que o uruguai ficou mais caro sem ter se tornado mais produtivo. e isso tem consequências que nenhuma negociação salarial pode reverter.

a segunda fratura é estrutural. a índia não é só mais barata. a índia tem escala. enquanto o uruguai produz alguns milhares de desenvolvedores por ano, a índia produz centenas de milhares. a ukg triplicou seu quadro em montevideo em três anos e depois fechou. não porque o trabalho fosse ruim. mas porque em pune podem fazer o mesmo, com a mesma qualidade técnica, a uma fração do custo e com dez vezes o volume disponível.

a qualidade uruguaia é real. mas não é suficientemente diferente para justificar o diferencial de preço quando o trabalho é intercambiável.

a terceira fratura é tecnológica. a inteligência artificial não vai eliminar o trabalho de software de uma vez. vai eliminar primeiro exatamente o tipo de trabalho que as factories fazem: código intermediário, suporte funcional, integração de sistemas, documentação técnica. o estrato que o uruguai mais exporta é o estrato mais exposto. a globant já o reconheceu implicitamente quando cortou mil posições sob o nome cosmético de "vision 2030". o mercadolibre disse sem eufemismos: os funcionários de ux que treinaram os sistemas foram substituídos por eles.

há uma quarta fratura que quase ninguém menciona porque é incômoda: a base educacional.

de cada dez jovens que iniciam o ensino médio no uruguai, três o concluem. desses três, uma fração menor completa um curso universitário. o setor tecnológico opera sobre esse funil. o talento de alto nível existe e é genuinamente bom, mas é escasso por definição estrutural, não por má sorte.

o problema não é só que faltam técnicos. é que o sistema não produz em quantidade suficiente o tipo de perfil que o modelo de alto valor requer: pensamento de produto, capacidade de design sistêmico, compreensão de negócio além de código. esse perfil se forma devagar, em um sistema que há décadas não resolve seus problemas de base.

e aqui está a ironia mais brutal: a inteligência artificial poderia ser uma ferramenta de aceleração para esse talento escasso. mas só para quem já tem base. para quem não a tem, a ia não compensa, amplia a brecha.

o que nenhum ator político está disposto a discutir é a produtividade.

o uruguai tem uma tradição sólida de debate sobre distribuição. os conselhos de salários, a reforma tributária de 2007, a cobertura de saúde universal são conquistas reais de uma sociedade que aprendeu a negociar a repartição. mas nesse processo, o salário real se converteu no proxy de tudo. se os salários sobem em termos reais, a narrativa política o interpreta como progresso. ponto.

o problema é que o salário real não mede produtividade. mede poder aquisitivo. são coisas distintas. e confundi-las durante vinte anos tem consequências: hoje o uruguai tem salários que cresceram acima de sua produtividade relativa, o que em setores exportadores de serviços se traduz diretamente em perda de competitividade. a conta chegou em forma de comunicados corporativos sem aviso prévio.

discutir produtividade sistêmica implicaria mexer na negociação coletiva, na rigidez do mercado formal e na medição real do gasto público por resultado. nenhum ator político está disposto a pagar esse custo. então o debate não ocorre, e o modelo se erode em silêncio.

para onde vai o setor, então?

a trajetória mais provável não é o colapso. é a bifurcação.

por um lado, um segmento pequeno e sofisticado orientado a produto próprio, ip, fintech regional e especialização em ia. a dlocal é o caso paradigmático: produto próprio, mercado global, valuation de unicórnio, recorde de us$746 milhões em revenue em 2024. tryolabs, pyxis, genexus em seu nicho, empresas que construíram algo que não se pode simplesmente realocar para pune ou vietnã porque não é um serviço genérico, é conhecimento acumulado com identidade.

por outro lado, um vazio onde hoje há 15.000 pessoas em factories. esse vazio não se preenche só com boas intenções nem com declarações de apoio ao setor. preenche-se com uma transição que o sistema educacional não está equipado para acelerar, que a política não está discutindo e que o mercado por si só não vai resolver a tempo.

a pergunta que ninguém está fazendo em voz alta é o que acontece com essas 15.000 pessoas (ou mais) nos próximos dois anos. não as que já foram demitidas. as que continuam trabalhando em um modelo que está sendo desmantelado gradualmente.

o uruguai tem talento real. tem instituições que funcionam. tem uma reputação de seriedade que levou décadas para construir.

mas o modelo de exportação de software que se construiu sobre essa base já não é sustentável em sua forma atual. e a transição para algo melhor, mais sofisticado, mais baseado em produto, mais resiliente, requer exatamente o tipo de conversa que a política uruguaia não está tendo: uma conversa honesta sobre produtividade, sobre o custo real da formação de talento e sobre que tipo de economia queremos ser quando o trabalho genérico já não estiver disponível.

essa conversa ainda não começou. e o tempo para tê-la está encurtando.

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